Paquito del Barrio
Hombres maduros haciendo berrinches y otras cosas de mariquitas
Desenho sobre gravura
Paquito del Barrio
21 de Março – 18 de Abril de 2026
Parece ser honroso que um livro atual derive de um antigo: já que a ninguém agrada nada dever aos seus contemporâneos. Jorge Luis Borges, Ficções
FICÇÕES – DO DESENHO
Gostava de começar este texto com uma proposição improvável: todo o real se resume a um conjunto virtualmente infinito de ficções. Desse universo, destaca-se hoje a obra singular apresentada por Paquito del Barrio neste ciclo de desenhos. Falar deste conjunto de trabalhos é um exercício tão árduo como andar sobre o aguçado fio de uma navalha, porque nestes tempos literais torna-se uma tarefa absolutamente inglória explicar que o aparente elogio da tourada é justamente um não elogio da mesma. É como tentar pintar um duende com o chapéu que o torna invisível, ou seja, um paradoxo nos termos.
Para um entendimento profundo das obras de Paquito del Barrio aqui presentes, é importante, desde logo, sublinhar que a série “Tauromaquia”, de Francisco Goya, na qual del Barrio se inspira, encerra uma assinalável ambivalência relativamente ao espectáculo arcaico da tourada, oscilando entre um retrato épico da mesma e uma visão da violência e da crueldade patentes em tal realidade. A ambiguidade desse conjunto de gravuras é, na verdade, inerente a toda a obra de “el Sordo” sobretudo se se pensar na antinomia razão/ loucura, profusamente tematizada por Goya, sem se poder distinguir que faceta prevalece.
Chegados aqui, importa, então, considerar a série “Tauromaquia” por aquilo que ela essencialmente desvela: uma refinada arena pictórica, na qual o génio de Goya se espraia com um talento e virtuosismo inultrapassáveis. Em cada cena assistimos, mais do que a um espectáculo bárbaro, à conjugação dos elementos basilares do desenho, ponto, linha e mancha, numa economia de meios de cortar a respiração, com o intuito último de gerar vida, movimento, ficções plenas de simulacro, por via da magia fulgurante do grande mestre espanhol.
Atento a tudo isto, o artista galego Paquito del Barrio executa na série “Hombres maduros haciendo berrinches y otras cosas de mariquitas” um movimento de metamorfose do imaginário goyesco, sem trair o que de essencial se encontra nas gravuras originais. A história destes trabalhos começa a desenhar-se numa viagem do artista a Portugal, na qual, durante uma breve estada em Lisboa, visita a exposição “This is Now”, de António Faria, composta por um conjunto de impressões com colagens a partir da série de gravuras “Desastres da Guerra”, de Goya, que o marcam de forma indelével.
É num momento de vazio criativo que, anos mais tarde, por mero entretenimento, Paquito del Barrio recupera uma série completa de reproduções da “Tauromaquia”, impressas nos anos 60 do século passado, coligidas numa edição de luxo e há muito adquiridas pelo artista numa das suas frequentes incursões por alfarrabistas. Decide, então, usar as gravuras de Goya como arena para uma singular aventura do desenho. Munido de guache vermelho e preto, as cores que o tinham fascinado no trabalho de António Faria, cobre os animais com pontos, linhas e manchas, desenvolvendo formas que nos dão uma sugestão de natureza vegetal.
Olhando com atenção os quarenta trabalhos de Paquito del Barrio, constatamos que o seu traço deixou um rasto, um vestígio das cenas originais, produzindo o efeito imediato de tornar a presença humana ridícula. Com efeito, velado o universo animal, perguntamo-nos o que fazem todos aqueles homens com lanças, estoques e outras armas da faina tauromáquica, ou qual o sentido de certa figura suspensa no ar pela sua vara. Fica o enigma das formas metamorfoseadas, onde o único animal visível, um cão jacente, nos dá a certeza de que não estamos perante um elogio do humano e menos ainda das touradas.
Ricardo Castro Ferreira