Edmond Baudoin
Edmond Baudoin
(Francês- Nice, 1942)
La ligne, un horizon; le corps, une rivière
(“Uma linha, um horizonte; o corpo, um rio”)
Exposição de arte original – 20 Junho a 5 de Setembro 2020
Apresentação:
A obra do artista e autor francês Edmond Baudoin (Nice, 1942) é fluida e mesclada, e ainda está numa fase de aprendizagem. A sua obra consolida-se nocampo da banda desenhada, mas a prática é uma convergência multiplicadora do caderno de desenho, do diário de viagem, do diário íntimo, da pintura caligráfica, do retrato. Existindo regras internas a essa linguagem, Baudoin não as conhecerá. Sendo o acto criativo algo de singular e pessoal, há espaço, sempre, neste artista, para a presença do outro nas suas páginas. Há lugar para o diálogo, a correspondência, a colaboração, a presença dos outros, sejam artistas ou não, amigos de longa data ou pessoas conhecidas apenas durante os minutos de fazer um desenho do seu rosto, olhos nos olhos. A presente exposição é um encontro de três livros, três gestos, eles mesmos encontros consequentes.
La ligne, un horizon; le corps, une rivière(“Uma linha, um horizonte; o corpo, um rio”) centra-se na arte original de três livros recentes do autor, ambos bem distintos entre si, ainda que marquem algumas das contínuas investigações e diálogos de Baudoin.
Le Corps Collectif(Gallimard: 2019) é um longo ensaio-caderno de observação. O autor dedicou alguns meses em que visitava o estúdio da companhia de dança contemporânea Le Corps Collectif, fundada em 2009 pela coreógrafa Nadia Vadori-Gauthier, partilhando momentos de exercícios de aquecimento, ensaios, discussões, processos de criação, assim como alguns dos espectáculos e acções exteriores. Tal como emQuestions de Dessin (2002) ou La Musique du Dessin (2005), este livro entrega-se a vários modos de tentar compreender a razão de um desenho, auscultando os seus automatismos e aprendizagens, domínios e encontros fortuitos. Tal como em tantos outros projectos, o diálogo que o autor estabelece com os seus interlocutores abre-lhes espaço no livro para que se expressem directamente, pelas suas próprias palavras, em conjunto com um retrato. E, acima de tudo, os desenhos formam-se na perseguição passional dos materiais em constante busca e perda do objecto traçado.
A obra e Baudoin sempre teve várias inflexões. A criação de bandas desenhadas de viagem sempre estiveram presentes, de certa forma, participando em vários volumes colectivos. A partir de 1991, com Couma Acò, Baudoin começou a explorar a vida dos seus familiares, amigos e amantes, numa complexa dança autobiográfica. Em 1995, com La Diagonale des Jours, o autor criou o primeiro livro a quatro mãos, com Tanguy Dohollau, numa espécie de correspondência gráfica. Finalmente, em 2011, cria o primeiro livro em parceria com Jean-Marc Troub’s, Viva la vida: los sueños de Ciudad Juárez, cuja missão foi a de visitar um país onde têm lugar crimes contra a dignidade humana, e se proporciona um encontro directo com as pessoas que sofrem, e se lhes pergunta “o que sonhas?”. Os retratos e testemunhos recolhidos pelos dois autores – depois em Le Goût de la terre, fruto de uma viagem a Bogotá, e Humains, la Roya est un fleuve (L’Association, 2018), segundo livro que é o cerne da presente exposição –, têm sido dos mais comoventes, empáticos e urgentes gestos gráficos da última década.
Humains tem lugar “mais perto de casa”, nas margens do Roya, um pequeno rio que nasce em França e desagua no Mediterrâneo, já em Itália. Nessa zona transfronteiriça em mais que uma dimensão, os dois autores encontraram-se com migrantes do Sudão, Eritreia, Serra Leoa, Chade, Afeganistão, e as associações que os apoiam, em busca das mesmas respostas humanas. Contra a violência fratricida, religiosa, étnica, social ou económica, e a desumanidade que enfrentam nas praias da Europa, por vezes o acto de um artista se sentar, desenhar um retrato, perguntar pelo nome e o sonho, é um acto de solidariedade e salvação profundo e duradouro.
La Traverse(L’Association, 2019) é um diálogo de diários, veiculados pela pena do artista. São deste volume as pranchas duplas que desenham as paisagens entre a observação natural, a empatia além-humana e o sonho fusional. Co-assinado por Mariette Nodet, esquiadora de competição, alpinista, trekker, foca a viagem a pé dela com a sua filha pelas paisagens belas e ásperas das faldas dos Himalaias, entre a Índia e o Nepal, como forma de luto da morte do seu marido. São dela as palavras escritas, são delas as memórias que desenham as paisagens, as pessoas, os encontros, mas pela mão de Baudoin, que coloca de permeio os seus comentários, as suas próprias viagens, as suas próprias montanhas, encontros e desejos de voo e ascensão, expressos pelos seus instrumentos de desenho.
Desde o seu primeiro livro, uma antologia de pequenos relatos de ficção científica/social em 1981, Baudoin terá criado cerca de 80 livros. Seguindo argumentos ficcionais, adaptando obras literárias, seguindo encomendas institucionais, criando a quatro mãos, compondo a partir de desenhos de campo, entrevistas ou simplesmente abrindo espaços de confissão, todos eles, todavia, se marchetam uns nos outros de modos subtis e incisivos, e que tornam claro ao leitor repetente a ideia de existir em Baudoin um “Poema Contínuo” (expressão de Herberto Helder).
É apenas um percurso de décadas entregues à incessante e diversa prática do desenho, fomentada por dúvidas e desvios – a educação e primeira carreira profissional de Baudoin estava afastada do mundo criativo – e uma paulatina e pungente exposição do si através da arte à medida que se a descobre – a autobiografia e a vida foram tomando conta da sua obra, até se libertar totalmente dos espartilhos de géneros, ficções e formatos – que se atinge o nível superno do desenho de Edmond Baudoin. Tal como alguns dos seus heróis-artistas, que cita textual e visualmente, os pintores chinês Shi Tao, o “monge abóbora amarga” (Guangxi, 1641-1719), e Katsushika Hokusai (Edo-Tóquio, 1760-1849), a idade madura serve para encontrar um novo despojamento, fortuna, força e novos inícios. Veja-se o rosto da velha que encerra Les Corps Collectif, esculpido por minúsculos traços desirmanados mas vogando sob a força da gravidade de um centro que se coalesce naquela personagem, num trabalho tão minucioso quanto expressivo, reminiscente das águas-fortes de Rembrandt. Ou a maneira como o pincel meio-seco vai marcando as folhas de uma árvore, os flancos de uma serra, acaricia os contornos anfractuosos de um rochedo, dobra as ondas, adensa as sombras aterradoras da noite, ou compacta os corpos dançantes, na sua ambição de colectivo.
A irmandade dos assuntos, do corpo humano ao rio serpeante, do arquear de uma montanha a um horizonte espraiando-se, da humanidade de um rosto à revelação de um nome, cumpre-se na linha e na mancha do mestre francês, que ainda percorre, interroga, aprende.
Pequeno CV por Baudoin:
“Um CV... tenho 78 anos, como fazer um CV? Precisaria de um livro de 1000 páginas.
Nasci em Nice em 1942.
Não fiz estudos nenhuns e saí da escola aos 16 anos (na altura, o mínimo).
Tenho 5 filhos, e 9 netos.
Fiz uma centena de livros.
Os meus livros ganharam prémios, 3 vezes em Angoulême, alguns dos quais traduzidos, em chinês, russo, inglês, português, espanhol, italiano...
Trabalhei durante 3 anos para um editor japonês.
Desenho desde pequeno, mas tive outro emprego antes de ter tornado o desenho o meu emprego. Fui contabilista até aos 32 anos.
O meu primeiro livro publicado, tinha eu 40 anos.
Fiz coreografias de danças contemporâneas, fiz canções.
Fui professor durante 3 anos numa universidade do Quebec.
Fizeram dois filmes sobre mim.
Na maioria dos livros, sou argumentista e desenhador, mas já me aconteceu trabalhar com outros autores, escritores.
Vivo em Paris.”