Diniz Conefrey
Desdobramento
Originais do livro «Estância do Sino Coberto»
Diniz Conefrey
8 de Novembro de 2024 – 10 de Janeiro de 2025
Este é um projecto de folego. Um enredo narrativo e visual nascido a vários tempos. Da viagem à India realizada pelo artista, o desenhador Diniz Conefrey, em 2022, percorrendo os locais da vida do Buda, descobrindo nesse propósito, a riqueza e as contradições de um país histórica e culturalmente intenso. Da memória resgatada dessa vivência e da descoberta da vida de Xuanzang, um monge budista chinês festejado pela viagem realizada à India no Século VII recolhendo textos originais sobre o budismo. Do trabalho de investigação realizado a partir daí, em torno dessa figura e do local que na India o celebra, um mausoléu próximo das ruinas da antiga universidade de Nalanda. E depois, da escrita literária de um argumento que procurou não apenas corporizar a viagem de Xuanzang, dando-lhe existência no relato e no pensamento, mas projectar a experiência da viagem ao presente, através das inquietações contemporâneas, de uma mulher em transito solitário pela India.
Para construir a trama, mas sobretudo proceder à caracterização física e psicológica dos dois personagens que se cruzam no tempo e na itinerância geográfica, Diniz Conefrey recolheu toda a informação possível. Fotografias, desenhos, relatos literários, testemunhos de diversa ordem. “Como no amor, tudo é válido” refere, para dar seguimento à intenção e densidade significante ao trabalho. Se sobre Xuanzang havia bastante material disponível de forma a cativar o personagem, mesmo que ficcionado pela escrita e pelo desenho, partindo de uma existência real, Nora, a figura feminina, foi inteiramente imaginada. “Foi um processo bastante cinematográfico, como se fizesse um casting” através da observação de rostos anónimos.
“ Um dia vi a Nora na rua. Era aquilo que eu imaginava” mas a escrita na primeira pessoa, construindo o feminino, resultou de muitas perguntas auto-formuladas (como se vestiria Nora? qual seria a sua postura? como lidaria com determinadas situações? o que sentiria em determinado local? como soaria a sua voz?) e de conversas com Maria João Worm, também artista, sua companheira, corresponsável pelo design e edição do livro através da chancela por ambos criada Quarto de Jade.Do corte e depuramento do texto, de um trabalho de découpage que isolou apenas o essencial da leitura, a elaboração da narrativa visual foi-se desenvolvendo a par. Normalmente pela concepção de cada prancha, que no presente caso, significa na visualização horizontal a duas páginas, cumprindo um efeito deambulatório do olhar, organizando sequências através de elementos que virão a constituir os fundos, com papéis diversos, de cor, texturados, ou mesmo chapas de TAC’s. Sobrepondo-se a estes, definiram-se paisagens e figuras, traçadas a partir de um desenho primevo feito sobre papel vegetal e que comportava a totalidade da história. Uma permanente articulação entre imagem e texto, “entre o que informa, o que está a mais e o que a página pede”.
Três objectivos nortearam o projecto. Ainda que partindo da vida de um personagem real que viveu séculos atrás e dos escritos por ele recolhidos, não fazer uma reconstituição de época. O narrador seria omnisciente mas a voz não seria a de Xuanzang. Depois era imperativo que a narrativa fosse trazida aos dias de hoje e seria então, a figura imaginada de Nora, narradora na primeira pessoa, quem faria essa ponte entre os dois períodos.
Um trabalho dedicado, com uma complexidade e exigência autoproposta por Diniz Conefrey, que foi em grande parte possibilitado pela atribuição de uma bolsa de criação literária pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas revelando o quão importante são os apoios dados à criação e ao desenvolvimento de processos artísticos.
A exposição deste conjunto de catorze pranchas originais, desprovidas de texto, reforçam o sentido estético e poético das imagens, possibilitando ao visitante uma silenciosa viagem, através do enredo.
Diniz Conefrey (n. 1965, Lisboa)
Poeta, ilustrador, adicionou à formação autodidacta o curso de desenho facultado na Sociedade Nacional de Belas Artes. Nas últimas três décadas tem participado como ilustrador e autor de narrativas gráficas, em diversos jornais, revistas e editoras, a par de ter efectuado diversos cursos de formação.
Em 2011, criou, com Maria João Worm, o selo editorial Quaro de Jade onde tem vindo a publicar alguns livros da sua autoria.
Foi bolseiro, em Portugal, do IPLB (Instituto Português do Livro e das Bibliotecas) no ano de 2000 e do Estado mexicano, para Estâncias de Criação Artistica, em 2005, 2007 e 2015. Mais recentemente, em 2024, foi-lhe atribuída uma bolsa de criação literária para banda-desenhada, pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas.
Colaborou na revista Cão Celeste, de 2012 a 2019 e publicou os livros de poesia No Coração de Agave, Douda Correria, 2017; Afluentes de Adobe (com Maria João Worm e Alexandre Sarrazola), Quarto de Jade, 2018; Um Fio Atravessa a Noite, Companhia das Ilhas, 2019; Fístula, Assírio & Alvim, 2024.
quartodejade.wordpress.com