Susa Monteiro
Susa Monteiro
(Portuguesa - 1979)
Postais de lugar algum – Susa Monteiro
Julho 2020
Susa Monteiro (Beja, 1979) criou este ciclo de imagens exclusivamente para a Tinta nos Nervos, as quais passam a integrar o acervo de obras em venda. A autora, com uma presença regular e celebrada nos mundos da banda desenhada, ilustração para a infância, ilustração editorial e campos da ilustração autoral, é uma séria herdeira de toda uma tradição de ilustração conceptual.
Se tomarmos em conta as maneiras como “traduzia” as crónicas de Lobo Antunes na revista Visão, como revelou a sua cidade natal no mapa-projecto da Pato Lógico, em que é menos importante a presença nas ruas reais e cartografadas que nos perdermos em novas descobertas, ou a maneira como tecia uma narrativa fantasmática no seu livro Sonho (também Pato Lógico), começamos a vislumbrar, sem nunca compreender na totalidade, os instrumentos que povoam o mundo gráfico da autora.
“Totalidade” é precisamente o que jamais ocorrerá nas suas imagens, pois elas estarão sempre abertas a um esforço interpretativo de quem observa e deseja nelas entrar. Não se tratam propriamente de enigmas, emblemas ou adágios como nas práticas renascentistas. Há algo que é devedor ao Surrealismo de um Paul Delvaux, ou à pittura metafisica de um De Chirico, mas numa prestação vívida, de figuras com grande presença, cores tropicais, e uma espécie de vergonha arrogante das suas personagens, se tal paradoxo for compreensível.
Este ciclo de 20 imagens, feitas a acrílico e guache sobre papel aguarela, parecem ser feitas sob o domínio da América, uma América mítica, ainda povoada por personagens inventadas nas ficções historiográficas da literatura e o cinema de género. Existem índios e cowboys, circos e rodeos de beira da estrada, as quais não têm fim, paisagens de desertos, aliens de Roswell e toda uma ménageriede animais que parecem ter mais do que o mero papel de representação das suas espécies: mustangs, coiotes, águias, rattlesnakes, e até dinossauros, cujo sangue de alcatrão tanto obceca o mundo contemporâneo. As cenas mostradas parecem retiradas de um qualquer livro por escrever de Southern Gothic (Flannery O’Connor, Cormac-McCarthy, DeLillo), com uns súbitos flashbacks para terrenos baldios nos arrebaldes de Los Angeles, onde a cultura thrashere loser tem os seus últimos estertores.
Susa Monteiro - CV
Susa Monteiro vive em Beja, cidade onde nasceu.
Estudou Realização Plástica do Espetáculo na Escola Superior de Teatro e Cinema e cinema de animação no CITEN. Durante alguns anos trabalhou como figurinista, caracterizadora e aderecista para o teatro e para o cinema.
Em 2009, com a inauguração da Bedeteca de Beja e do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja (onde é responsável pela linha gráfica e coorganizadora), deixa definitivamente as artes do espectáculo e passa a dedicar-se exclusivamente à banda desenhada e à ilustração.
Nos últimos anos ilustrou livros para diversas editoras como a Pato Lógico, Porto Editora, Bertrand, Asa, Verbo, Bruáa, Oficina do Livro, etc. E ilustrou cartazes e panfletos para várias instituições e projectos (Casa da Música, Palavras Andarilhas, Almarte – Festival de Artes na Rua, La Guarimba International Film Festival, Play - Festival Internacional de cinema para a infância e juventude de Lisboa, Festival du Court Métrage de Clermont-Ferrand, etc.)
Publica regularmente ilustrações e bandas desenhadas em vários álbuns, fanzines, jornais e revistas.
Tem exposto frequentemente o seu trabalho em festivais de Banda Desenhada e galerias individual e colectivamente.