Retratos
André Ruivo
Retratos: os originais - Desenhos
7 de Dezembro 2024 – 1 de Fevereiro de 2025
“Sou eu. És tu. Somos nós.
Na crescente economia caligráfica do André, agora entretido a gravar, com humores de cartoonista, o mundo à sua volta, o artista dá-se a vagares e luxos de uma pausa barroca para fixar estes Retratos, maquilhados a pastel. Retratos têm um anonimato mentiroso: desconfiamos que o André, não corre muito para grafar a alma destas intrigantes personagens. Por aqui andam a família, os amigos e os vizinhos… Da anatomia distópica das criaturas se dirá que é caricatura, mas é pura realidade, vista pelos olhos do André. Retratos são ato de amor e hino à diversidade humana, destilam ternura nos seus cabelos de estopa, olhos estrábicos, narizes impossíveis, cores arco-íris e adereços de pechisbeque. Há histórias estampadas nestas caras riscadas a pastel seco e profundezas insondáveis e insuspeitas que não custam imaginar. Retratos que fazem gato-sapato de um género pictórico e das veneráveis barbas da História da arte ocidental, num jeito pop que não esconde as raízes de uma outra proeza do artista, Breakdance, livro anterior, de grata memória. São já um clássico, estes Retratos, no nosso mundinho das artes visuais. Chamem-lhe Neogrotesco, Neopsicadélico, sei lá. O que eu sei é que estão mesmo a pedir certificado de maioridade ao perspicaz olhar dos críticos e a piscar o olho à aquisição para museu público ou coleção secreta. Assim se deseja, assim será.”
Jorge Silva, Designer
Desenhador, ilustrador, realizador de filmes de animação e músico, André Ruivo é um artista multifacetado que tem na edição e no livro de artista um esteio e um veículo principal do seu trabalho criativo.
Para lá das características dos suportes que utiliza e das exigências próprias das disciplinas operadas, o seu discurso assenta em narrativas visuais que mesclam a observação, o comentário do real ou imaginações diversas com uma experimentação informada e divertida dos materiais de desenho. Através de imagens singulares ou desdobradas em sequência, acompanha os pequenos enredos dos dias sem que haja necessariamente uma intenção diarística, mas antes a vontade em segurar um pensamento, cativar uma situação do real, apontar uma qualquer contradição de feição onírica. São desenhos certeiros, de traço único ou em desenho-mancha, que não se escusam, no exercício experimental, ao mais cru e texturado, ao apelo cromático apesar do preto e branco mais usual, à manipulação de tintas ou materiais de desenho. Imagens onde sempre a ternura, mesmo que nascida de um comentário agreste, se revela pela empatia criada com as mais complexas ou intimas situações quotidianas e do ser humano. A mesma intencionalidade num plano despojado e legível, centrado numa qualquer figura em acção, emerge nos seus filmes.
Retratos é um projecto de grande impacto no conjunto de trabalhos de André Ruivo. Nasce da vontade de conceber uma galeria de retratos que não sejam representações fieis de um modelo, mas antes exercícios plásticos onde a memória e a sua transformação, se tornam fundamentais.
Nesta exposição apresenta-se pela primeira vez ao público a série de onze desenhos realizados a pastel seco sobre papel Canson. Em cada folha, revela-se um retrato, a imagem expressiva de um rosto, numa dimensão considerável, a enfrentar o espectador. As faces não são reconhecíveis ainda que algumas partam de observações do artista metamorfoseadas pela lembrança.
Este é, nas palavras do artista, “um conjunto de personagens inventadas, pessoas inexistentes, mas com direito a retrato. Falsos vizinhos, professores, funcionários públicos.” São riscadas com intensidade, figuras plenas de energia, tornando-se o traço linear matéria informe, plano pictórico densamente cromático. Estão “ a olhar para mim, para os leitores, em tamanho real”.
Os desenhos foram digitalizados e transpostos integralmente para a edição num livro, com design de Jorge Silva, com 1ª edição da Mmmnnnrrrg, em 2017, e a 2ª da Tinta nos Nervos, em 2019.
O livro – concebido como um objecto artístico - procurou ser fiel aos desenhos originais, mantendo uma grande dimensão e qualidade gráfica, a intensidade cromática das figuras, a proximidade gerada pela tonalidade calorosa do papel e do manuseio, em escala desmedida, com o sugerido desdobramento entre quem vê e é visto. E essa dimensão Pop do livro apela inevitavelmente à interacção do publico com as imagens reproduzidas.
É uma obra maior que pode ser abordada em duas vertentes – desenhos originais e livro - , um momento especial para se poder usufruir do diálogo entre desenho, pintura (pela materialidade do riscador) e múltiplo, pela transposição através da impressão, num livro.
A estreita conexão que o artista estabelece entre desenhos e livros é reforçada pelo facto de sempre ter resistido a expor, e recusado a vender, originais das suas publicações. É por isso com particular gosto que a Tinta nos Nervos acolhe este projecto e os originais que lhe deram corpo.
Tinta nos Nervos.