Pedro Zamith
Pedro Zamith
(Português - 1971)
O irresistível passeio, pela cidade de Lisboa, do Dr. Garuda e seus amigos.
1 de Outubro – 26 de Novembro de 2022
Esta exposição nasce de uma proposta de Pedro Zamith para trabalhar a partir de objectos expostos no Museu da Marioneta para sobre eles acrescentar um discurso artístico, deslocalizado na galeria da Tinta nos Nervos. Não se trata de um trabalho documental no sentido estrito do termo ou de mera reprodução de um conjunto de peças já de si fruto do trabalho artístico, mas sim do abrir a porta a um discurso paralelo, passível de ser gerado pela criação de uma renovada iconografia e enredos biográficos.
Um vai e vem que se pretende gerar entre Galeria e Museu, conduzido por Pedro Zamith, que encontrou, na cidade de Lisboa, o palco perfeito para o deambular de estranhas personagens.
Artista com uma prática multimédia muito versátil na experimentação do desenho, Pedro Zamith tem articulado, na sua pesquisa, territórios referenciais informados, devedores de um interesse pelos rumos criativos da contemporaneidade, seja no campo das artes plásticas, da imagem em movimento e novos média (em que se inscreve com particular destaque o cinema), seja no do desenho, da ilustração ou da banda desenhada.
Sendo assim o desenho origem e fundamento dos projectos que leva a cabo, atravessando outras técnicas e suportes, Zamith apresenta na Tinta nos Nervos uma escultura, uma tela e um conjunto de pinturas sobre papel, inéditas e concebidas especialmente para a exposição.
O ponto de partida para este trabalho foram as colecções e peças expostas no Museu Nacional da Marioneta de que o artista é frequentador assíduo, aliando a prática artística à uma prática lectiva, de reflexão sobre os objectos e os lugares da arte.
Pode dizer-se que máscaras e marionetas, pela significância das fisionomias e energia das formas, se conjugam plenamente com o vocabulário plástico experimentado por Zamith, caracterizado pelo exagero que coloca nas expressões da sua figuração, nas emoções que revelam ou nas torções dos corpos elásticos postos em acção.
A ideia de apropriação dos objectos musealizados foi motivada exactamente por valores relacionados com a presença de algumas peças, a sua compleição ímpar, a ideia de que foram utilizadas em contexto pré museológico como expressão cultural de diferentes povos e países.
No conjunto exposto na Tinta nos Nervos, acrescenta-se um nível de leitura a esses antes enunciados: o de um trabalho de projecção e imaginação de identidades visuais e biográficas sobre os objectos, recriados através de outras linguagens plásticas. Nesta proposição transformadora, não interessa já o que significam ou quem são, não se trata de qualquer relato antropológico ou documental, mas antes de uma ampliação da fantasia, um exercício artístico de citação e construção de discurso em que o referencial, sendo um objecto real, revive em tudo o que para lá dele se edifica, na representação. Ao suscitar a ideia de que houve acontecimentos decorridos fora do museu entramos no domínio da ficção, em que essas situações são, na realidade, apenas visíveis, no espaço galerístico.
A visita encontra aqui três momentos distintos.
Num primeiro, é confrontada com uma galeria de estranhas criaturas. São rostos nascidos das máscaras vistas, em que a evidência de uma semelhança descritiva com os originais que serviram de referente se dilui no exercício de distanciação que leva a que o artista mentalmente reconstitua o que viu. O que lhe chamou a atenção. Num outro tempo. Uma espécie de galeria de espelhos em que todos aqueles poderíamos ser nós enquanto outros inventados.
Num segundo momento, as bizarras entidades tomam o palco, poderiam aludir aos espectáculos de marionetas erguendo-se, agora agrestes, numa teia de relações onde erudito e popular se mesclam. Uma diabólica figura de varas traz a cena a história de Salomé e São João Baptista cuja cabeça ali pousa num prato. Ou não será bem assim? Não é ele? Houve crime, na rua da Esperança? Quem foi? As figuras, lançadas vigorosamente a tinta preta sobre grandes folhas de papel, são iluminadas de modo teatral. Podemos não saber o enredo, mas que algo se passa, passa.
E não apenas na galeria, mas por toda a cidade de Lisboa.
O terceiro momento envolve o espectador num delírio narrativo ancorado em quadros-janela intensamente coloridos. Neles, os objectos inanimados insuflaram-se de características próprias. Aqui, não são já máscaras ou marionetas, são criaturas viventes de pleno direito, antropomorfizadas nos gestos, no vestuário. Também não são divindades ou demónios. São andarilhos do mundo que se cruzam agora por Lisboa. Vindos de outras geografias (ou apenas do final da rua?), de diferentes tempos. Correspondem ao mais puro exercício de contar uma história. Do hipotético como motor do enredo. Quem seria esta figura se existisse por aí? O que iria ver? Em que tempo viveria? Garuda poderia ser uma criatura mitológica, mas poderia ser, ao invés, um distinto pedagogo e lente, apanhado de surpresa ao atravessar a rua frente à casa dos bicos. D. Mahákola por sua vez, chegou ao Hotel Ritz em plenos anos setenta para repor energias e afastar doenças e males atávicos. A selfie pintada na tela marca o momento em que todos se encontraram, num dia em que passeavam pela cidade de Lisboa.
O título que nomeia esta exposição, intencionalmente longo e rocambolesco, reforça a convergência de argumentos. Podiam ser estas as histórias. Ou outras.
Mas uma pergunta impõe-se: estes mascarados não mascarados, saíram das vitrines e do museu ou nunca lá estiveram?
Pedro Zamith - CV
Licenciatura em Pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, 2000.
Curso de Animação 2D pela Fundação Calouste Gulbenkian, 1996.
Bacharelato em Cenografia e Figurinos pela Escola Superior de Teatro e Cinema, 1993.
Pós graduação em Ensino Artístico pela Faculdade de Psicologia de Lisboa, 2006
Professor de Visual Arts no Oeiras International School desde 2011.
Exposições individuais:
Galeria ORIQ, Lisboa 2022.
Galeria Espaço Exibicionista, Lisboa 2020.
Galeria Espaço Exibicionista, Lisboa 2018.
Galeria Bang Bang (parceria com António Salvador Carvalho), Lisboa 2017.
Galeria António Prates, 2016.
Project room, Miguel Justino Contemporary Art Gallery, 2015.
Centro Cultural de Cascais, 2014.
Museu Jorge Vieira, Beja, 2013.
Galeria Picket pocket (parceria com a fotografa Isabel Saldanha), 2013.
Galeria Arte periférica, 2012.
Projecto “Urbicanda”, FIL Arte Lisboa, 2011.
Galeria Arte Periférica, 2011.
Galeria Dama Aflita, Porto, 2010.
Galeria Who, Lisboa, 2010.
Espaço Fábulas, Lisboa, 2010.
Galeria Appleton Square, Lisboa, 2009.
Galeria Arqué, Lisboa, 2007.
Projecto com MJV, JMP e A.L em parceria com Vera Cortês Agency, Lisboa, 2007.
Galeria Pedro Serrenho, Lisboa, 2006.
Estufa Fria, Lisboa, 2005.
Galeria Monumental, Lisboa, 2003.
Galeria Quadrum, Lisboa, 2002.Project room,
Galeria ZDB, Lisboa, 2000.
Exposições e projectos Colectivas (selecção):
Project LISBOAGORA pela Camara Municipal de Lisboa (comissariado por António Jorge Gonçalves, com vários artistas), Lisboa- 2020.
“WTF?!?”Exhibition with Antonio Salvador Carvalho and Guttguff, Livraria Sá da Costa- 2017
Centro Cultural de Belém, 2010.
Illustration project for the fashion designer Nuno Gama, Moda Lisbon-2010.
Centro de Artes Plásticas de Coimbra, 2010.
Museu Berardo, 2010.
Galeria Carlos Carvalho, 2009.
Museu de Arte Contemporânea na Corunha, Espanha, 2006
MEIAC de Badajoz, Espanha, 2005
Pavilhão Portugal, Lisboa, 2004.
Interpress, Lisboa, 2002.
Museu Serralves, Porto, 2001.
Hospital Julio de Matos, Lisboa, 2001.
Publicações:
“José Cid” Ed.Diário de Noticias, 2009.
“O homem que desenhava na cabeça dos outros” ed.Oficina do Livro, 2006,
“Louis Jordan” Ed.Nocturne, França, 2004.
“Frank Sinatra” Ed.Nocturne, França, 2003.
“ A estranha ligação de três habitantes de Brooklin: O talhante, O Farmaceutico e o taxista”, Ed.Bedeteca de Lisboa. 2000.
Colecções:
MNAC- Contemporary Art Museum in Chiado, Lisbon. Portugal.
Telecom Fundation, Lisbon. Portugal.
Norlinda José Lima Contemporary Art Colection. São João da Madeira, Portugal.
Luciano Benneton Collection.
Várias colecções privadas.