José Miguel Gervásio
José Miguel Gervásio
“A mãe foi ao leite e não voltou” – Desenhos
20 de Janeiro a 9 Março de 2024
Apresentação
Neste pequeno conjunto de desenhos, pelo menos dois assuntos se perfilam. Um, dominado pelo sentido da série, que como uma espécie de ensaio exprime uma estrutura e a leitura possível do todo. O outro, assente na montagem, permite construir narrativas que confluem para a validação do projecto, ultrapassando o quadro na dimensão original do seu silêncio, a alegoria enquanto paradigma estético. Espécie de tema, este da alegoria. Um falso tema a que a produção de quadros não pretende de facto obedecer e que pertencerá antes à categoria da pintura de contornos históricos, que antecede o quadro finalizado e a montagem, pois a série implica um diálogo vivo com a história das imagens pintadas. No entanto, a série aproxima-se deste sentido por desmembramento, aparição fantasmagórica ou espectral das imagens, pretendendo afirmar-se num dos mais prolíficos debates sobre a arte do século XX e que implicou o desaparecimento do próprio objecto de arte, substituindo-o pela palavra, pelo signo, pela alternativa significante imaterial, abrindo passagem para que o nada se tornasse em ser, em suma, em tema da arte. Perante a análise, a essência da arte confunde-se com o que lhe é essencial. Aquilo que têm em comum os desenhos e a pequena pintura da exposição com a súmula da questão é o facto de os desenhos e a pequena pintura pertencerem, como um iminente caso de pretensão fenomenológica, ao fim do mundo da arte. A série é uma experiência subjectiva que faz oscilar a produção da pintura através de um conjunto de fases que só aparentemente terminam na montagem e na exposição. Em qualquer dos casos, denota-se um vínculo de sentido expressionado na linguagem da série, mas que não ultrapassa a intencionalidade do autor, que é o mesmo que dizer que se trata de uma experiência de alguém cultivado num determinado tempo, mas que pretende levar em linha de conta a historicidade da sua experiência, assim como a do objecto através do qual se manifesta essa experiência. E no entanto, creio que nada disto serve para explicar a arte que se faz, ou para produzir arte, a não ser para, muito diligentemente, transformar em norma de transitividade aquilo que é puramente pessoal. Por isso, esta insistência em desenhar e pintar, particularizando uma universalidade que é, apenas e só, a unidade do quadro projectada no que queremos ver. Toda esta série é um corpo orgânico, que implica fortemente a imaginação do observador.
Curriculum
(Português, Montijo 1968)
José Miguel Gervásio, nascido em 1968, na cidade de Montijo, vive e trabalha em Montemor-o-novo.
É licenciado em Artes Plásticas-Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, 1989-1994; Mestre em Práticas Artísticas em Artes Visuais pela Escola das Artes, Universidade de Évora, com a tese Joyciana: Pollies, Mollies & Dollies, ou a permanência da subjectividade em pintura. Actualmente, frequenta o curso de doutoramento da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, na especialidade de Pintura.
Expõe regularmente desde 1994, tendo, nesse âmbito, sido representado por duas galerias de arte portuguesas. A Galeria Quadrado Azul, Porto, e o Módulo - Centro Difusor de Arte, Lisboa. Tem desenvolvido trabalho de pintura, desenho e escultura, encontrando-se representado em várias colecções públicas e privadas, das quais se destacam a Fundação Carmona e Costa, Lisboa, e o “Gabinete Gráfico” da Biblioteca Apostólica Vaticana, Roma.
No âmbito da literatura, salienta-se a publicação de dois trabalhos de características poéticas pela editora & etc, “O Sol Branco” e “Navio”. Em 2018, “Sonatina”, edição de autor em parceria com Miguel Rocha, que ilustrou. Este texto foi ainda adaptado ao teatro pela companhia Projecto Ruínas. Em 2022, a editora Língua Morta publicou “Não São Para Valsas Todas as Noites”.
No campo da ilustração destaca-se a produção da comunicação gráfica realizada para uma temporada de programação da associação cultural “Colecção B”, Évora, as ilustrações do livro “Alucinar o Estrume”, de Júlio Henriques, Edições Antígona. É um dos ilustradores residentes da revista “Flauta de Luz”