João Sebastian
TEXTO DE BRUNO SELVA:
Um bom Mestre não nos ensina apenas a técnica, ou segredos que se assemelham a truques de magia e fazem parecer que damos piruetas no ar enquanto praticamos o ofício que nos ensina. O João ensina-nos a ética, o humor, a fraternidade, a generosidade, a honestidade, e até, a sensibilidade.
(…)
«Que não sejam ditas as palavras que não forem necessárias dizer», mas ainda bem que ele as caligrafou com um grande pincel numa grande folha que, bem amachucada, colocou numa embalagem de queijo, ou lá o que é. Ou outras coisas tão essenciais, como «AMO-TE» deve ser escrito bem grande e num cartaz que bem dobrado quase pode caber num bolso, ou que «só te ergues porque estás “enraizado”».
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O ponto de partida de uma investigação anterior residia na constatação de que os livros estudados não eram apenas um suporte de texto, mas um espaço de convergência entre o tangível e o intangível, o físico e o virtual, o artesanal e o tecnológico. O livro, enquanto objeto, processo e experiência, que reflete as transformações culturais e cognitivas da sociedade contemporânea, exigindo novas abordagens de produção e de leitura.
Num tempo em que o digital se tornou a linguagem dominante, pretendia-se compreender de que modo as tecnologias de impressão tradicionais continuam a influenciar o processo criativo e a leitura, e de que forma o livro, enquanto artefacto material, se reinscreve na contemporaneidade pós-digital.
Estas peças de Sebastian valorizam a relação entre a experiência sensorial e a leitura, o gesto e a autoria, a materialidade e o pensamento. São bons exemplos pois, estimulam a reflexão sobre a relação entre o livro, o leitor e as tecnologias que moldam a sua forma, produção e experiência. Promovem a reflexão sobre a relação entre as tecnologias de impressão ou produção e o objeto, entre o processo criativo, o resultado do objeto livro e a sua leitura. Isto é, onde o design e produção da página sensorial impressa, ou caligrafada, sublinham a importância do contacto e da relação física e emocional, quer do autor, quer do leitor, no decorrer dessa interação com o objeto impresso e de configurações híbridas.
Não interessa muito saber em que prateleira do supermercado, das artes ou dos designs, se devem ou podem colocar as “coisas” que Sebastian tem vindo a fazer, escrever e produzir. Os objetos são compostos de excessos, desperdícios e restos da sociedade de consumo. E, depois de transformados e intervencionados, transportam temas que evocam carências e lacunas no departamento afetivo e emocional da humanidade. O amor, a guerra, o sexo, (a prostituição em particular) e o humor, são personagens recorrentes.
Algumas destas peças assemelham-se mais a livros, alguns deles minúsculos, mas minuciosamente encadernados com capa dura, como se de enciclopédias se tratassem. Talvez daqui a uns tempos, quando o que resta de nós desaparecer, assim sejam considerados. Devido aos ensinamentos especializados que aí se encontram.
Além de tipografia de caracteres móveis, carimbos, gravuras, colagens, stencil, máquinas de escrever, serigrafia, etc., Sebastian recorre a canetas de pincel, ou aos próprios pincéis e até trinchas, e com a sua própria caligrafia regista mensagens como quem escreve uma carta, que pode ser de amor, ou uma página que pode ser de um diário. É ele que está lá. São pedaços dele. Preciosos. Partilhados de um lugar dos mais puros e bonitos, que já não existe em todos nós.
Uma das questões que partilhamos é o que pode ser um livro, ou uma edição, ou uma publicação. Mas a questão é, afinal o que não pode ser um livro? Uma cápsula de um rolo fotográfico? A embalagem dos bombons do almoço de Natal? Caixas de ovos? Caixas de fósforos, ou do take-away de sushi?
Há dias ouvia-o dizer. «Bem, vou andando. Assim, quando chegar a casa, ainda tenho luz suficiente para ir apanhar umas raízes».
O mais interessante, de tudo em Sebastian e no que ele faz e diz, é a despretensão. Lado a lado com a grandeza das suas mensagens. A, aparente, despreocupação gráfica é, na verdade, uma preocupação prática. Que parece estar relacionada com os suportes, o substrato, o tato. Com a urgência em dizer, escrever, produzir, deixar dito, deixar feito. Não pensa no que é trendy (nem fala inglês). Não pensa a que horas deve sair à rua, nem em que flor levar na mão, para fazer parte de grupetas. Não pensa nos limites do livro, em paralivros, meta-livros, ou extensões de livros. Como as suas edições, é verdadeiramente livre e independente até desses conceitos. Sebastian faz ‘livros’ que podem não ser classificados dessa forma, pois talvez o termo mais apropriado seja, de facto, objetos, ou então o pomposo livro de artista. Cria, escreve, constrói, às vezes até produz o material de que acabam por ser feitos. Os outros que os leiam e tentem defini-los, que os sintam e pensem neles.
TEXTO DE JOÃO SEBASTIAN
Um escritor falhado não deixa de ser um escritor.
É um escritor, falhado. O que não se pode é dizer que não tentou, falhou, mas tentou. Pode ainda dizer-se que em primeiro lugar tentou e só depois é que falhou, ou seja, não falhou ao tentar o que é digno, tentou.
O pobre diabo tinha algo a dizer, o que convém a um escritor, mas não era dado a flores nem a floreados, não era mesmo, mas disse e ficou dito, ou seja, escreveu.
(…)
São livros feitos a partir de objetos do dia a dia, desperdícios modernaços sem outro fim que não a reciclagem. Mas são também objetos que nos são familiares e com os quais lidamos no quotidiano, talvez isso ajude e não são repugnantes por isso mesmo. Usei o mínimo possível de recursos, é verdade, não deixei foi que ficassem por fazer. E não tentei dissimular os materiais que uso, são como são. Não são ricos nem pobres, porque eu não acredito nisso, são os que são e são como são.
Já as histórias não são assim tão fáceis de resolver. Na verdade, não contam histórias, constatam realidades de uma forma mais ou menos crua e cruel, coisa que estamos pouco habituados, porque o quotidiano… o quotidiano a que nos habituamos, confortável e seguro é também enganador.
Mas também não me custa nada assumir que não são livros e que são outra coisa qualquer que não sei nomear, bolas, são o que me apetece fazer e pronto. Até porque isso de conceito alargado de livro, eu sei lá o que quer dizer? Diga-me quem entende dessas coisas ou não me diga nada porque estou um bocado farto de pedir opiniões e isso nunca me fez chegar a lado nenhum. As pessoas gostam de comprar coisas, adoram mesmo comprar coisas e falo das pessoas, mas quero dizer todas as pessoas, ou seja, a humanidade adora comprar coisas e essa foi a minha fonte inspiradora, colocar os meus trabalhos, aquilo que faço, disfarçado dentro de embalagens com as quais as pessoas estão familiarizadas e que pelos vistos lhe são muito agradáveis e talvez fazê-las sentir algum ridículo, embora na verdade seja provavelmente eu quem vai cair no ridículo, sei lá. Inspirar-me no grande defeito das “pessoas”, talvez não seja muito interessante nem uma boa ideia e ninguém vai comprar o meu trabalho para não me dar razão e eu não estou verdadeiramente interessado em vender, claro.
(…)
O amor, o tema de todos os poetas é motivo para eu escrever algo, sem dúvida. Mas a guerra que é o assunto dos nossos dias, a prostituição que é para mim o enigma de todos os tempos e o consumismo, são algumas das minhas preocupações, mas poderiam ser outras porque são tantos os assuntos que me assombram, que me impedem de estar confortável na minha vivencia diária e que são uma preocupação constante para mim.
Se eu fosse culto, intelectual ou tão só um tipo formado poderia dar uma opinião fundamentada sobre estes assuntos, não sou e, portanto, resta-me uma abordagem “artística”, ou seja, sei o que sinto, mas tenho dificuldade em escrevê-lo e o que sinto talvez faça sentido e seja percetível por outros que observem os meus trabalhos. Se assim não for, nada disto fará sentido.
(…)
Se por acaso acharem que isto parece uma banca de mercearia, não estarão completamente enganados
Mas não é isso que querem? Coisas. Então é isso que eu estou a fazer, coisas. As coisas de que gostam e a que estão habituados, coisas que se compram em lojas e supermercados e que se usam e consomem, não é um termo bonito, mas é muito útil para definir os tempos que correm.
A TIPOGRAFIA DE JOÃO SEBASTIAN AKA PAPELEIRO DOIDO
João Sebastian, tipógrafo com mais de 40 anos de profissão, teve o primeiro contacto com a tipografia no seu primeiro emprego como servente numa das tipografias existentes na margem sul do Tejo, com o Mestre Victor Gonçalves. Inicialmente começou por varrer a oficina e despejar os caixotes de lixo. Foi preciso esperar por uma vaga numa máquina de impressão para poder finalmente começar o percurso como aprendiz de impressor. Começava-se pelas máquinas manuais, depois crescia-se em maturidade profissional até chegar aos formatos maiores e às máquinas automáticas. Imprimiam-se sobretudo faturas, cartões-de-visita, cartas e envelopes. Também se trabalhava muito em embalagens para medicamentos ou chás. Não havia lugar para ser criativo, tudo era muito feito dentro das regras que tinham sido aprendidas com os mais velhos. No caso dos compositores ainda se permitia alguma criatividade para criar algum logótipo, mas aos impressores era exigido apenas que cumprissem a função o mais depressa possível.
A sua Tipografia do Papeleiro Doido surge com a necessidade de criar uma editora para participar em feiras e eventos e poder vender a sua produção artística. Fazem todo o tipo de impressos, normalmente associados a causas e não trabalham por encomenda.
A Tipografia do Papeleiro Doido não tem limites no uso de técnicas de impressão, todas as técnicas são validadas pela expressão e «não há gato por lebre. Se queremos usar uma letra de máquina de escrever, usamos mesmo uma máquina de escrever». É assim também com a tipografia. Gostam de usar as técnicas de forma a que se perceba que tipo de impressão se trata. «Nas minhas edições uso todas as técnicas, porque todas são boas. Para mim as técnicas de impressão serão mais ou menos como o pincel do pintor. Nos meus trabalhos escolho a técnica em função do objetivo a atingir».