Ernst Volland
Ernst Volland
Jogo ou Fuga - Múltiplos e Livros
11 de Março – 19 de Abril de 2023
Nos anos que se seguiram ao 25 de abril de 1974, o artista e curador alemão Ernst Volland (n.1946, Bürgstadt/Miltenberg) acompanhou de perto a efervescência das manifestações artísticas portuguesas após os longos anos de ditadura.
Fruto também da sua amizade cúmplice com o pintor britânico sedeado em Lisboa, David Evans, organiza uma primeira e importante exposição na Alemanha que reunia obras de alguns dos artistas activos neste período. Chamou-lhe Portugiesische Realisten e mostrava trabalhos de Virgílio Domingues, David Evans, Eduardo Batarda, João Abel Manta, Eduardo Nery, Rolando Sá Nogueira, Rogério Ribeiro, Henrique Ruivo, Bartolomeu Cid dos Santos, Rocha de Sousa, Vasco e Marcelino Vespeira. Desse acontecimento de 1977, foi editado um catálogo que permanece hoje um importante testemunho, tal como no ano anterior havia editado, também na Alemanha, sob sua orientação, o livro Portugal - ein schwieriges Problem - Joao Abel Manta - Politische Karikaturen und Plakate, desta feita congregando o trabalho gráfico de cariz político de João Abel Manta.
Ernst Volland, ele próprio desenhador irrequieto e empenhado na crítica a políticas opressivas e no assinalar, com acutilância e humor, as flutuações contraditórias das sociedades e das complexas relações entre as pessoas, editou ao longo da sua carreira diversos livros onde dá expressão às suas linguagens, do cartoon à colagem, do desenho mais livre à intervenção sobre imagens fotográficas pré-existentes, às acções performativas e ao video. Mais recentemente tem explorado as possibilidades das tecnologias digitais, sobretudo como forma de fazer transitar o seu trabalho original.
Com a presente exposição de múltiplos de Ernst Volland, a Tinta nos Nervos evoca o momento desse encontro com Portugal e com a arte portuguesa, acolhendo um conjunto recente de impressões digitais numeradas e datadas pelo autor, executado a partir de trabalhos das últimas décadas, e um núcleo de livros de sua autoria, bem reveladores das suas preocupações políticas e sociais ao longo do tempo e da sua indómita vontade em tornar acessíveis as imagens realizadas.
MEMÓRIA FOTOGRÁFICA
Por David Evans
“Bombardeados diariamente por terríveis imagens de guerra, fome, doença, catástrofes climáticas da nossa própria autoria, tornámo-nos insensíveis e entorpecidos ao seu impacto - em parte para nossa própria sobrevivência e saúde mental.
Nesta exposição, a que chama Jogo ou Fuga (Spiel oder Flucht), Ernst Volland pega em imagens fotográficas, muitas das quais são registos trágicos da loucura humana e retrabalha-as usando as técnicas tradicionais do artista: colorir-obliterar-eliminar-enfatizar-desfocar para desafiar o espectador a olhar novamente para memórias visuais desconfortáveis que foram escondidas e enterradas profundamente na nossa psique.
O processo de transformação é a maneira de Volland dar nova vida às imagens que sente serem tão relevantes para nós hoje quanto eram quando foram feitas pela primeira vez. É também um veículo de apropriação – com objetivos estéticos, sociais e políticos.
Ernst Volland sempre foi fascinado por fotografias e pela forma como podem ser manipuladas e exploradas. Ainda jovem, realizou e publicou cartazes e postais utilizando técnicas de fotomontagem em que o humor irreverente e a sátira foram usados para questionar e criticar o establishment político e os pilares em que se baseava.
Foi a criatividade de Volland e sua independência política que tornaram seu trabalho tão eficaz como crítica da sociedade. Na maturidade, a sua obra evoluiu para uma seriedade goyaiana que alargou o seu impacto e apelo ao mesmo tempo que exige mais do espectador, convidado a baixar as suas defesas e a tomar partido nos diferentes conflitos e tragédias que retrata.
A Galeria Tinta nos Nervos está de parabéns por mais uma mostra excepcional - de um artista que merece ser mais conhecido em Portugal - quase meio século desde que expôs pela primeira vez em Lisboa.
Ernst Volland
Alemanha - Bürgstadt/Miltenberg, 1946
“As imagens de Ernst Volland são obra de um contrabandista. Este é um nome para um homem honrado que não comete fraude e roubo, mas age habilmente como contrabandista transportando mercadorias além das fronteiras contra a proibição. A partir do século XIX conhecemos contrabandistas que transportam signos e ideias entre mundos diversos, da arte à fotografia, das imagens às palavras, da linguagem às imagens imaginadas. As fotos de Volland são extensões das atividades do contrabandista do século XIX com meios visuais do presente. Com o contrabando de mercadorias proibidas, eles têm em comum a transgressão de fronteiras e a quebra intencional de regras.
A arte com mensagem política tornou-se impopular e perdeu seu lugar no discurso público atual. Para manter o compromisso político nas artes, é preciso camuflagem e meios que escondam o político, possibilitando ao mesmo tempo a divulgação de sua mensagem. A contrabanda de Volland esconde ideias em uma visualidade distorcida. Ele transforma a imagem difusa em meio de comunicação subversiva transgredindo as linhas divisórias que separam o cômico do sério, o compromisso e a distância, a mensagem política e a pura piada. Estas imagens transitam entre a montagem que desde Eisenstein, Höch e Heartfield sempre foi política, e a experiência surrealista que atinge o subconsciente e o mundo dos sonhos. Essas imagens deslizam da documentação para o jogo da imaginação. Desfocar imagens serve como um meio artístico de contrabandear o político para a estética da arte. Volland também usa giz de cera infantil para fazer desenhos que escondem temas políticos em arte pseudo-infantil. Esta é uma alienação deliberada com o objetivo de esclarecer os públicos adultos.”
Prof. Dr. Bernd Hüppauf