Assombrados
André Ruivo
Assombrado - Exposição de desenhos de 2003
11 de Maio a 23 de Maio de 2021
Nas vésperas da abertura da Tinta nos Nervos, o pintor Pedro Proença que participava na mostra inaugural do espaço, apareceu com uma tela de grandes dimensões enrolada debaixo do braço. Tratava-se de um trabalho de André Ruivo, desenhador, ilustrador, realizador de cinema de animação, que no início dos anos 2000 partilhava o atelier consigo e uma série de outros criadores, entre os quais João Fazenda e Joana Toste. Ao abandonar o espaço, o artista havia deixado para trás uma tela, despojo não reclamado, para que os outros artistas pudessem dar uso à armação repintando a imagem. Desengradada e guardada por Proença, assim chegou à Tinta quinze anos depois e foi de imediato adoptada como cartão de visita do projecto. E a razão para tal prendeu-se com o facto de estar em total sintonia com o conceito sobre o qual se construiu a Tinta, espaço da imagem desenhada e seus múltiplos desdobramentos, sugestão narrativa, processo criativo à flor do papel (ou da tela), realização, desafio, experimentação, inconformismo.
Desde essa altura alimentámos o desejo de reunir trabalho realizado pelo artista na altura em que produziu esta imagem, ano que foi particularmente profícuo e o impulso criativo se concretizou em diferentes áreas, do desenho à pintura, da ilustração à música.
Sob o termo Assombrado, encontrado na distância temporal da reflexão sobre o que se produziu, reúne-se agora cerca de uma vintena de desenhos a diferentes escalas.
Muitas vezes surge neles o mesmo desenho, como se progressivamente o autor fosse conquistando o tamanho do suporte, as exigências de composição, o manejo dos materiais riscadores e ensaiando o impacto das imagens. É esse o caso do desenho que originou a tela na Tinta. Da folha de papel primeiro, ao cartão depois, e finalmente à tela, as figuras traçam-se a caneta a fixar a ideia e composição, a marcador de feltro e giz quando transpostas para a superfície cartonada aumentando a escala, e por fim a tinta acrílica ao transformar o desenho em pintura de grande escala.
O desenho tem, no trabalho de André Ruivo, uma presença regular. Esta prática revela-se, na presente mostra, nas folhas destacáveis dos cadernos integralmente preenchidas. O caderno é, nesta altura, levado para todo o lado e o desenho executado em qualquer contexto. Surge em paralelo ao trabalho de ilustrador de imprensa com metodologias, prazos e regras distintas (no jornal Publico, O Independente). Ou da construção do desenho animado que envolve equipas e outras circunstâncias (como no filme A Fantasista, de 2003).
O desenho surge como exercício quotidiano, mas em aproximação não tanto ao que se vê, mas ao que se pensa, uma espécie de desenho interior tantas vezes envolto no negrume do privado. Um desenho que encontra eco no estremecimento do que nesse singular se reconhece do que a todos pertence: o sentimento de desacerto face ao outro, a solidão, a raiva, a transgressão, a descoberta, a curiosidade, a complexa relação dos casais.
Esse gesto introspectivo patente no desenho atravessa igualmente a música concebida por André Ruivo. Membro de Rollana Beat, experimentou neste período, e com o final da banda, um projecto a solo com a autoedição de dois álbuns onde os desenhos surgem de forma coerente como paisagem visual para as letras e sonoridades concebidas. A chancela editorial de autor que havia surgido em cerca de 1993 volta a ser utilizada, desta feita com a edição de uma tiragem limitada e numerada de CD’s.
Aliás, foi exactamente no contexto de um concerto, no Lux Frágil, desta feita de Loopooloo, a banda paralela do baterista de Rollana Beat, André Sentieiro, que parte destes trabalhos foi mostrado uma única vez. De resto, a maior parte dos desenhos aqui presentes são inéditos.