André Lemos
Anré Lemos
(Português - Lisboa, 1971 )
A Bombordo, os robustos e descontinuados
Exposição de desenhos
24 de Setembro a 28 de Novembro 2020
Apresentação:
André Lemos é um desenhador. Ainda que no seu percurso tenha aflorado classes e categorias do desenho que assumam outros nomes mais precisos - banda desenhada, ilustração, arte mural, cartoon editorial, graphzines -, em toda a sua produção preside a manualidade, a imediaticidade e urgência do desenho, agregando-os por um mesmo corpo.
Mesmo nas obras que mais poderiam estar próximas dos programas classicamente narrativos da banda desenhada – como Quem é Este Homem?, publicado em 1999 pela Bedeteca de Lisboa, a adaptação do filme de Leone através de O Percutor Harmónico, em 2008 (Ao Norte) –, já havia uma exploração das fragilidades sobre esse mesmo propósito asseguradas pela fragmentariedade de cada quadro, das elipses, dos confrontos entre os elementos espaciais e de acção. A ideia de série, porém, onde elos formais e conceptuais conseguem fundar significados mais duradouros derrotando a ideia da linearidade da leitura, é algo mais presente e experimentado, desde o diálogo com Grosz, em Super Fight II - Grosz Vs Lemos (Mmmnnnrrrg 2002), e depois Family Portraits e An Intrusive Black Circle (2007 e 2010 respectivamente, pelo seu próprio selo Opuntia Books).
Àparte estes desafios mais coerentes, digamos assim, em termos de tecer uma pesquisa centrada num tema, forma ou mesmo resposta, a sua presença nas mais variadas exposições, mostras e certames colectivos, ou a solo, e sobretudo a sua arregimentação para toda uma panóplia de editoras independentes e small-press europeias (as francesas Francis Laporte ou a Cotoreich, a alemã Re:Surgo!, a russa Pipe & Horse), foram sempre território para as suas desventuras mais “soltas”, onde um instrumento ou um caminho pode seguir-se a outro, se não incompatível, pelo menos bem distinto. Marcando assim um
exercício que pode ser visto como de escrita, até mesmo de correspondência, resposta a um interlocutor, em circunstâncias precisas.
Esta exposição marca, até certo ponto, um regresso em força, num tempo marcado por incertezas e dúvidas criadas por palavras que já existiam, mas ganham contornos muito exactos nos nossos dias, como “confinamento” e “distanciamento social”. Na avidez e verve de resposta às dimensões negativas, esta foi uma oportunidade para o autor se espraiar na sua criação totalmente livre, em quantidade, em formato, em tamanho. Uma maneira de se subtrair à vida do fazer, a produtividade subsumida à utilidade social, para conseguir interrogar aquele quarto de instante de profunda dúvida, receio, único salto, de separação e necessariamente oblíquo. Já no que diz respeito à valorização qualitativa, isso caberá tão-somente à decisão do visitante.
Regressando também de forma oblíqua à ideia de séries, mais ou menos presididas por um tema ou princípio, os desenhos A Bombordo; Os Robustos e Descontinuados parecem perseguir uma anomia, pela sua variedade de assuntos, composições, ângulos, unidade de estilo, presença de personagens, textos, cenas identificáveis enquanto tal, e forma de interpelação com o espectador. Certos desenhos parecem responder ao hodierno, outros parecem querer alcançar aquilo que fictivamente chamamos "o universal". O maquínico convive com o orgânico, o gráfico com o onírico, o satírico com o admoestante, o ilustrativo com o automático. Se o desenho é uma forma de pensar o mundo, Lemos quer pensá-lo todo. Ou colocá-lo todo em dúvida.
A habitação de personagens, em repouso teatral ou acção, o surgimento de textos e ilusões de “episódio” ou “momento pregnante”, e até o que pode interpelar-nos como um título alternativo, palavra de ordem ou insulto directo, constitui apenas uma rasteira que aumenta a incerteza da direcção e do método.
Tendo experimentado muitas técnicas ao longo da sua carreira, inclusive e mais recentemente a colagem digital, os trabalhos apresentados nesta exposição foram criados a tinta-da-China sobre papel, exclusivamente para a Tinta nos Nervos, e numa prática que recorre à mais antiga e espraiada das tradições, o desenho a pincel.
O gesto e a voracidade, a ampla atenção e assunto, a súbita mudança de humor e território, alia-o a uma constelação de referências dessa indisciplina material, irmanando-o, nessa incessante avidez de captura, a Leonardo e Delacroix, Shi'tao e Hokusai, George Grosz e Anni Albers, Philip Guston e Saul Steinberg e Paul Hogarth e Brett Whiteley e Raymond Pettibon. Todos eles autores capazes de mostrar aquele quarto de instante de Perros.
Se se compreender que nenhum desses trânsitos é paradoxal, ilumina-se a justeza descritiva do título.
Biografia
André Lemos (Lisboa, 1971) é artista, ilustrador, autor de banda desenhada, editor independente e agora carteiro também. Com trabalhos publicados em diversas edições individuais e colectivas, tanto em Portugal como no estrangeiro, participou em várias exposições colectivas e individuais. Em 2006 formou a sua própria editora independente: a Opuntia Books.
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