Ana Biscaia
Ana Biscaia
(Portuguesa - Figueira da Foz, 1978)
Um sítio onde pousar a cabeça
desenhos, estudos e arte original édita e inédita
9 de Setembro a 31 de Outubro 2021
O olho do visitante vogará num instante pelos espaços que o circundam na galeria, e captará, a um só tempo, duas noções apenas aparentemente contraditórias: a variedade das imagens – nas suas cores e tamanhos, superfícies e figurações, estilos e convivências – e a tranquilidade que por tudo perpassa.
Sobre a primeira questão, é fácil adivinhar as razões. Esta exposição reúne quer trabalhos advindos de publicações quer de capas, posters, trabalho de pesquisa cenográfica, outros. E destas fontes de pesquisa e desenvolvimento, encontraremos uma escolha (afunilada de um acervo imenso!) tanto do que seria com efeito publicado e colocado à circulação como do que seria posto de lado ao longo do processo de criação e produção, como ainda até de imagens que, talvez, jamais teriam outro poiso senão o da própria urgência de os fazer, naquele momento, naquelas circunstâncias, daquele modo. É possível que essas imagens (chamemos-lhe “avulsas”, chamemos-lhe “séries” ou “desenhos sem casa”) possam revelar parte dos segredos da prática da artista. É possível que sejam apenas um outro momento de silêncio...
O trabalho de Ana Biscaia (Figueira da Foz, 1978) tem incidido sobretudo no território amplo conhecido por “ilustração”, no seu sentido clássico de acompanhamento de um texto, de iluminar uma matéria verbal (poesia, prosa, ensaio), mas sem jamais subsumir a sua prestação gráfica a uma mera redundância de elementos presentes no texto, meros encorporamentos das palavras. Há sempre uma interpretação e distância, menos preocupada com “esclarecer conteúdos” do que estabelecer novos relançamentos do significado.
Em termos matéricos, Ana Biscaia tem uma predilecção clara por processos e materiais tangíveis, que deixam mesmo traços e rastos indomados da sua materialidade. Papel, como é óbvio, e de várias texturas e gramagens, que permitam insuflar na passagem dos riscadores características próprias. E muitas vezes tratado como algo a mexer, moldar, manipular, rasgar, ao ponto de ter as extremidades menos prístinas do que poderiam ser numa outra abordagem mais clássica. Há aqui uma dobra, ali um vinco, este sofreu um rasgão ou um buraco, estoutro recebeu um adesivo, um acrescento. Os riscadores predilectos são o grafite, o carvão e o pastel seco, mas lança-se mão do pastel de óleo, do lápis de cor e do de cera, da aguarela e do guache, do giz, do marcador e do corrector. Em termos cromáticos, encontramos igualmente uma oscilação ditada pela exactidão do projecto: do alto contraste a preto-e-branco a amplas opções de cor, que ora vogam por um território pastel ora por abordagens mais fauve. Daí emergem os traços feéricos da artista, as linhas nervosas sobrepostas que não se decidem numa única clareza, os traços excessivos que fazem vibrar o olho, a “sujidade” toda à mostra, os matizes invandindo-se. E com as correcções visíveis, estão também as passagens nas margens das tentativas dos materiais, os apontamentos. E ainda a “colagem”, que faz cirandar todos os processos sobre todos eles novamente.
Mesmo nos trabalhos publicados, muitos desses traços, acidentes e indecisões que se coalescem elas mesmo em elementos da imagem final são visíveis. Quando tudo isso surge em exemplos óptimos de impressão (seja pelo offset, a risografia, a serigrafia, ou mesmo o digital) parece permanecer uma pátina de impermanência desses traços materiais, podendo mesmo surgir uma breve ilusão táctil de que sujaríamos os dedos com estes lápis e linhas e cores (mas não seria isso uma felicidade nossa?). Vejam-se os originais de Fêmea e apercebamo-nos de como a artista prevê, em colaboração seguramente, como será ocupada o quinhão da imagem. Como ela integra muitas vezes parte da matéria verbal na sua própria lavra. Como a página “sem imagem” acaba por não se cumprir, lançado que está o substrato imagético, abstracto, lençol de cor mais ou menos sólida, continuação da imagem lateral, que receberá depois o texto composto.
A esmagadora maioria do trabalho de Ana Biscaia tem sempre uma atenção particular para com a figura, o rosto, muitas vezes até optando por enquadramentos apertados e “próximos”. Ou do isolamento de certos objectos, tornados símbolos legíveis. Mais vincados ainda se traçados somentes a carvão. No caso presente, apresentam-se algumas imagens criadas para o livro A quem pertence a linha do horizonte? (Editora Página a página), onde uma outra dimensão da sua prática, de intervenção cívica, se impõe, corroborada pela técnica indicada: a do foco, a chamada de atenção, a urgência. Este livro tem textos de João Pedro Mésseder, escritor com quem a artista já havia colaborado em dois outros livros de teor idêntico, Que luz estarias a ler? (Xerefé) e Clube Mediterrâneo (Editora dos Tipos/Xeferé). Nestas obras, declara-se abertamente um posicionamento, ético, político, humano, ideológico, face aos problemas do êxodo e mortandade no Mediterrâneo e do território palestiniano.
Pela força das circunstâncias dos últimos anos, a artista passou a conviver mais tempo com os materiais, o silêncio e o interior. Daí que se revelem nesta exposição, pela primeira vez, capítulos do seu trabalho de menor circulação, como as paisagens sem poiso certo, de contornos abertos, feitas a pastel seco, que rasgam as expectivas das mais conhecidas facetas de Biscaia, e o olhar do espectador.
E depois chega a segunda questão, a noção de tranquilidade, mesmo nos desenhos politizados, mesmo no frenesim das figuras e cores, mesmo no conjunto variado que aqui se ergue. Mas essa questão, que seja respondida pela visita atenta.